Projeto Apoio Fraterno é tema de matéria no site O Consolador

Recentemente, Edson Luís Cardoso (foto), psiquiatra e presidente da Associação Médico-Espírita de Santo Ângelo (RS), apresentou sua dissertação de mestrado trazendo à banca acadêmica uma nova ferramenta que auxilia grupos de autoajuda de uma forma inovadora e moderna: a utilização de um blog, ou seja, uma página veiculada na Internet, cuja estrutura permita atualização rápida a partir de acréscimos de artigos ou outras postagens. Com a finalidade de trazer algo ágil e eficaz na troca de informações para auxílio aos grupos que trabalham no apoio a dependentes químicos, essa tecnologia oferece um trabalho seguro e funcional. Muito bem acolhida pela universidade, essa temática pode ajudar a muitos outros grupos envolvidos na tarefa de apoio fraterno.

Para saber um pouco mais sobre o assunto, confira a entrevista que ele nos concedeu:

Como surgiu a ideia de trabalhar com blog como estratégia educativa?

O aumento importante de usuários e tipos de drogas ingeridas, apontado nos dados científicos atuais, e a minha observação, empírica, da progressão desse agravo geraram, há aproximadamente 15 anos, a ideia (inspirada pelos amigos espirituais) de fundar com outros voluntários, junto a uma instituição de Doutrina Espírita, um grupo de autoajuda a dependentes químicos e codependentes chamado Apoio Fraterno (AF).

 

A partir desse projeto piloto, outros grupos “AF” foram fundados, contabilizando hoje em funcionamento: 14 no Rio Grande do Sul, 1 em Santa Catarina, 2 no Paraná, 1 no Espírito Santo e 1 em Alagoas. Tal atividade e sua difusão, no Brasil, foram, em especial, a motivação maior para o desenvolvimento desse blog, por conta da inquietação sobre a educação não formal aos voluntários, companheiros dessa jornada. O objetivo é, portanto, por meio dessa ferramenta tecnológica, contribuir para o desenvolvimento de um trabalho com mais segurança e, por consequência, mais bem qualificado ao atendimento às pessoas que sofrem os malefícios devidos aos transtornos pelo uso de substâncias psicoativas.

 

O blog faz parte, com uma dissertação, do meu projeto final de mestrado na  Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI Campus Santo Ângelo, pelo Departamento de Ciências Exatas e da Terra – Programa de Pós-Graduação em Ensino Científico e Tecnológico – Mestrado Profissional, cujo título é: O Blog como Estratégia Educativa aos Voluntários de Grupos de Autoajuda à Dependência Química – “Apoio Fraterno”.

 

Quem são os voluntários que participaram desse estudo? 

Através da ferramenta tecnológica Google Docs, questionários de pesquisas foram enviados para trabalhadores voluntários de grupos AF (pessoas das mais variadas profissões, como donas de casa, empresários, professores, advogados, dentistas, médicos, psicólogos etc., todos participantes de grupos de estudos da Doutrina Espírita e que fizeram curso de Capacitação ao Trabalho Voluntário no AF, organizado pelo Núcleo de Dependência Química do Departamento de Saúde Mental da AME-Brasil, a fim de que suas respostas fornecessem os subsídios necessários para a construção do blog voltado para os próprios trabalhadores dos AFs.

Como você estruturou a ideia para a pesquisa? 

Os dados que nortearam a construção do blog foram coletados por meio de um questionário autoaplicável, sob o formato de casos clínicos, aos voluntários dos grupos espíritas Apoio Fraterno de seis municípios, e julgados por meio da análise de conteúdo, na modalidade temática. As perguntas versaram sobre conhecimentos técnicos, aspectos emocionais e espiritualidade.

Diante dos resultados do questionário, foi elaborado um blog para educação em saúde, a ser socializado aos referidos voluntários e aos demais voluntários que não participaram da pesquisa, mas que, igualmente, trabalham em grupos AF. O estudo foi desenvolvido no segundo semestre de 2015 e primeiro semestre de 2016, incluindo-se a elaboração do produto.

Quais os principais resultados?

A pesquisa e seu método de análise proporcionaram um olhar meticuloso que incorporou, por parte do investigador, a pré-compreensão do voluntário às manifestações e interações dele em seu contexto. Dos resultados depreendeu-se que há lacunas no conhecimento dos sujeitos pertinentes à dependência química. Diante disso, a criação de uma ferramenta tecnológica pode ser usada como recurso pedagógico às necessidades de conhecimento atualizado da população em estudo, à aquisição de saberes utilitários, os quais podem qualificá-los na função de auxiliar aos que sofrem os dramas da codependência e da dependência química.

Qual o futuro do uso dessa ferramenta para o auxílio de dependentes químicos?

Por se tratar de um espaço criado com o auxílio do próprio voluntário do AF, a expectativa é que as lacunas de conhecimentos evidenciadas na pesquisa, bem como as variáveis facilitadoras e/ou dificultadoras dessa atividade, possam aprimorar os saberes prévios desses indivíduos, o que, empiricamente, permite supor que as pessoas dependentes químicas e codependentes assistidas, nos variados AFs em funcionamento no País, sejam mais bem atendidas nesse modelo de grupo de autoajuda à dependência química.

Embora tenha sido construído para o voluntário do AF, trata-se de um blog de Educação em Saúde, o qual é definido pelo Ministério da Saúde como: “Processo educativo de construção de conhecimentos em saúde que visa à apropriação temática pela população […]. Conjunto de práticas do setor que contribui para aumentar a autonomia das pessoas no seu cuidado e no debate com os profissionais e os gestores a fim de alcançar uma atenção de saúde de acordo com suas necessidades.”

 

Qual é a estrutura do blog?

O blog está estruturado de uma forma que, além do voluntário, qualquer pessoa pode acessar e buscar os conhecimentos contidos nessa ferramenta, conforme ilustram os gráficos abaixo:

 

 

Que mais você gostaria de acrescentar sobre essa experiência?

No início, esse trabalho da AME-Brasil foi, tímida e temerosamente, chegando à Universidade, onde encontrou algumas resistências iniciais devido a estar, explicitamente, vinculado à espiritualidade, porém as incontestáveis comprovações científicas apresentadas sobre os benefícios à saúde humana permitiram a superação das barreiras e o projeto foi adiante. Essa foi a primeira vitória; a segunda veio com a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa com o seguinte parecer: “A pesquisa e seus objetivos são socialmente importantes. Para além da pesquisa pretende-se produzir uma ferramenta educativa que possa auxiliar na qualificação de um serviço voluntário de grande relevância social.”

Depois, minha alegria foi compreender o trabalho no AF como algo que vai além da saúde, pois está intimamente relacionado a inúmeras vertentes educacionais como a educação não formal em saúde, social e ambiental, estando inclusive em consonância com a Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio + 20 em 2014, que apresenta, em sua redação final, o objetivo de número três que tem como título: Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades, que visa até 2030 reduzir em 1/3 a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis via prevenção e tratamento do abuso de substâncias lícitas e ilícitas, promovendo, assim, saúde e bem-estar.

Essa compreensão define, claramente, o objetivo do AF que é, através da educação moral, auxiliar pessoas a vencer os transtornos relacionados ao uso de substâncias, tal como citado em O Livro dos Espíritos:

 

“Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.” (O Livro dos Espíritos, nota de Kardec à margem da questão 685 “a”.)

É a AME-Brasil, com o Apoio Fraterno (AF), seguindo os passos educacionais do Codificador.

Matéria do site O Consolador, de 7 de maio de 2017.
Disponível em: www.oconsolador.com.br/ano11/515/entrevista.html